E agora?
E agora?
Madalena Barbosa
Que a reforma da Administração Pública é urgente, todos/as concordamos. Precisa--se é de coragem para mudar as regras, os regulamentos, e não recorrer a fórmulas empresariais na moda
Diante da torrente de problemas que vamos enfrentar nos próximos anos, encontra-se a questão do "monstro adormecido" - administração pública (AP). Nos últimos anos, tem servido de bode expiatório para todos os males do país - mau atendimento, burocracia, buraco no orçamento, falta de produtividade, embaraço para o crescimento económico, etc., etc. Mas afinal quem é essa gente, humilhada e ofendida, que trabalha na AP?
São médicos e médicas, enfermeiras/os, professores/as, técnicos de serviços sociais, juristas, cientistas, investigadores/as, engenheiros/as, arquitectos/as, operários/as, economistas, administrativos/as de apoio, etc. Quase 60 por cento destas pessoas são mulheres, mas entre os dirigentes de primeiro nível apenas 22 por cento podem vestir outra coisa que não fato escuro e gravata (dados do último censo realizado, em 1999).
E convenhamos que, se, em percentagem da população activa, as gentes que trabalham na AP não são muitas, mas o são em percentagem do PIB, talvez a questão seja o PIB, o produto interno, o crescimento económico. Que por sua vez passaria, também e em parte, por uma reforma da AP. É um dos pratos nacionais preferidos: a pescadinha de rabo na boca.
E a reforma prometida desde 1974? Tarda. Parcial, feita sem o apoio das pessoas que trabalham, mal esclarecidos os seus objectivos, o que tem acontecido é que, cada vez que se faz uma reforma/remendo, acaba-se por inventar novas maneiras de gastar papel e tempo, a burocracia, os tais papéis que ocupam cerca de 60 por cento do tempo de trabalho da AP.
Não sendo de facto a minha especialidade, mas por conhecimento directo, gostava de esclarecer as pessoas em geral que, diferentemente do sector privado, que pode fazer tudo segundo as suas próprias regras, excepto o que é proibido, as pessoas que trabalham na AP só podem fazer aquilo que está definido pela lei como suas competências e segundo métodos e regras legais.
O que quer dizer, por sua vez, que a AP não pode fazer uma verdadeira gestão, tentar métodos organizacionais de economia ou rapidez, procurar a produtividade de forma adequada ao seu sector, mas antes se move num colete-de-forças, em que é mais o proibido do que o permitido, numa série de regulamentos feitos para todos e que não servem a nenhuns.
E quem faz a lei, queridos utentes? Exactamente os mesmos que fazem da AP o seu bode expiatório: os governos. E os nomeados, a quem a AP fornece os dados, os relatórios, os pareceres. Que vão aprendendo a ser dirigentes nas suas áreas com a (in)formação que recebem da famigerada administração.
Era bom que o público soubesse que cada pedido, ofício, carta que apresenta na AP tem de seguir um processo de registos, despachos, informações técnicas, propostas, cabimentos, autorizações, "projectos de ofícios" (esta foi nova para mim, que rica invenção!) que, por vezes, leva a que a carta mais simples leve um mínimo de três semanas até obter resposta. É a lei. Tudo e todos controlados, pois, sabe-se lá? É o reino da desconfiança. Só os que são verdadeiramente vigaristas conseguem ultrapassar a barreira legal dos obstáculos. Quem é honesto e quer cumprir desespera, descabela-se e, depois do desgaste de alguns anos, somado ao insulto geral da nação, desmotiva-se.
Mas o "downsizing" é que é moderno. Com ou sem despedimentos, é a resposta geral, e mais fácil, a qualquer dificuldade. Esta administração que não tem carreira para gestores, nem contabilistas encartados, nem auditores, nenhuma dessas novas profissões que, por vocação, deveriam aumentar a produtividade e acelerar os processos, pensa antes em privatizações ou em organismos paralelos, como as tais fundações e similares. Mas convém não esquecer que a lógica empresarial, principalmente neste jardim à beira mar plantado, é o lucro e não o serviço público. Por trás da transformação de um serviço público noutra coisa qualquer, que não AP, está a tentativa de ultrapassar leis obsoletas e a falta de coragem em as mudar.
Mas, sem despedimentos, com a fórmula de por cada dois reformados entrar um ou uma funcionária nova, como se joga o "puzzle" do aumento da idade das reformas e da inovação tecnológica ou outra?
Se estou bem de cabeça, parece-me aqui haver correntes contraditórias que, como acontece quando se encontram as águas, geram remoinhos que nos prendem e afundam. Com uma reforma mais tardia, haverá menos gente a reformar-se nos próximos anos, o que resultará numa AP envelhecida. No entanto, é com esta população que se pretende a inovação, a implementação de novas tecnologias, o emprego para jovens e o aumento da produtividade.
Sendo assim, onde se empregará a juventude? Vão ser os velhos a pagar os subsídios de desemprego? E "aonde, aonde é que se esconde, essa quimera" (António Nobre que me perdoe), o crescimento do PIB, do PNB e das outras siglas começadas por P?
Esquecendo que mais tempo de vida não equivale a melhor qualidade de vida, sugere-se que as reformas sejam feitas em função da esperança de vida. E como as mulheres vivem cerca de dez anos mais que os homens, lá vamos nós trabalhar até morrer. E sendo as mulheres uma maioria na AP, preparem-se os escritórios para as cadeiras de rodas, as bengalinhas, os centros de enfermagem, pomadinhas para o reumático, etc.
Não com estatuto de especialista nesta área, mas como cidadã que pensa e sofre os problemas da administração, pelo menos deixem-me expressar a perplexidade. Que a reforma da AP é urgente, todos/as concordamos. Precisa-se é de coragem para mudar as regras, os regulamentos, e não recorrer a fórmulas empresariais na moda, ou sair pela porta dos fundos. No meu entendimento o Estado não é uma empresa, mas está ao serviço das propriamente ditas e de cidadãos e cidadãs. Especialista em questões de género
Madalena Barbosa
Que a reforma da Administração Pública é urgente, todos/as concordamos. Precisa--se é de coragem para mudar as regras, os regulamentos, e não recorrer a fórmulas empresariais na moda
Diante da torrente de problemas que vamos enfrentar nos próximos anos, encontra-se a questão do "monstro adormecido" - administração pública (AP). Nos últimos anos, tem servido de bode expiatório para todos os males do país - mau atendimento, burocracia, buraco no orçamento, falta de produtividade, embaraço para o crescimento económico, etc., etc. Mas afinal quem é essa gente, humilhada e ofendida, que trabalha na AP?
São médicos e médicas, enfermeiras/os, professores/as, técnicos de serviços sociais, juristas, cientistas, investigadores/as, engenheiros/as, arquitectos/as, operários/as, economistas, administrativos/as de apoio, etc. Quase 60 por cento destas pessoas são mulheres, mas entre os dirigentes de primeiro nível apenas 22 por cento podem vestir outra coisa que não fato escuro e gravata (dados do último censo realizado, em 1999).
E convenhamos que, se, em percentagem da população activa, as gentes que trabalham na AP não são muitas, mas o são em percentagem do PIB, talvez a questão seja o PIB, o produto interno, o crescimento económico. Que por sua vez passaria, também e em parte, por uma reforma da AP. É um dos pratos nacionais preferidos: a pescadinha de rabo na boca.
E a reforma prometida desde 1974? Tarda. Parcial, feita sem o apoio das pessoas que trabalham, mal esclarecidos os seus objectivos, o que tem acontecido é que, cada vez que se faz uma reforma/remendo, acaba-se por inventar novas maneiras de gastar papel e tempo, a burocracia, os tais papéis que ocupam cerca de 60 por cento do tempo de trabalho da AP.
Não sendo de facto a minha especialidade, mas por conhecimento directo, gostava de esclarecer as pessoas em geral que, diferentemente do sector privado, que pode fazer tudo segundo as suas próprias regras, excepto o que é proibido, as pessoas que trabalham na AP só podem fazer aquilo que está definido pela lei como suas competências e segundo métodos e regras legais.
O que quer dizer, por sua vez, que a AP não pode fazer uma verdadeira gestão, tentar métodos organizacionais de economia ou rapidez, procurar a produtividade de forma adequada ao seu sector, mas antes se move num colete-de-forças, em que é mais o proibido do que o permitido, numa série de regulamentos feitos para todos e que não servem a nenhuns.
E quem faz a lei, queridos utentes? Exactamente os mesmos que fazem da AP o seu bode expiatório: os governos. E os nomeados, a quem a AP fornece os dados, os relatórios, os pareceres. Que vão aprendendo a ser dirigentes nas suas áreas com a (in)formação que recebem da famigerada administração.
Era bom que o público soubesse que cada pedido, ofício, carta que apresenta na AP tem de seguir um processo de registos, despachos, informações técnicas, propostas, cabimentos, autorizações, "projectos de ofícios" (esta foi nova para mim, que rica invenção!) que, por vezes, leva a que a carta mais simples leve um mínimo de três semanas até obter resposta. É a lei. Tudo e todos controlados, pois, sabe-se lá? É o reino da desconfiança. Só os que são verdadeiramente vigaristas conseguem ultrapassar a barreira legal dos obstáculos. Quem é honesto e quer cumprir desespera, descabela-se e, depois do desgaste de alguns anos, somado ao insulto geral da nação, desmotiva-se.
Mas o "downsizing" é que é moderno. Com ou sem despedimentos, é a resposta geral, e mais fácil, a qualquer dificuldade. Esta administração que não tem carreira para gestores, nem contabilistas encartados, nem auditores, nenhuma dessas novas profissões que, por vocação, deveriam aumentar a produtividade e acelerar os processos, pensa antes em privatizações ou em organismos paralelos, como as tais fundações e similares. Mas convém não esquecer que a lógica empresarial, principalmente neste jardim à beira mar plantado, é o lucro e não o serviço público. Por trás da transformação de um serviço público noutra coisa qualquer, que não AP, está a tentativa de ultrapassar leis obsoletas e a falta de coragem em as mudar.
Mas, sem despedimentos, com a fórmula de por cada dois reformados entrar um ou uma funcionária nova, como se joga o "puzzle" do aumento da idade das reformas e da inovação tecnológica ou outra?
Se estou bem de cabeça, parece-me aqui haver correntes contraditórias que, como acontece quando se encontram as águas, geram remoinhos que nos prendem e afundam. Com uma reforma mais tardia, haverá menos gente a reformar-se nos próximos anos, o que resultará numa AP envelhecida. No entanto, é com esta população que se pretende a inovação, a implementação de novas tecnologias, o emprego para jovens e o aumento da produtividade.
Sendo assim, onde se empregará a juventude? Vão ser os velhos a pagar os subsídios de desemprego? E "aonde, aonde é que se esconde, essa quimera" (António Nobre que me perdoe), o crescimento do PIB, do PNB e das outras siglas começadas por P?
Esquecendo que mais tempo de vida não equivale a melhor qualidade de vida, sugere-se que as reformas sejam feitas em função da esperança de vida. E como as mulheres vivem cerca de dez anos mais que os homens, lá vamos nós trabalhar até morrer. E sendo as mulheres uma maioria na AP, preparem-se os escritórios para as cadeiras de rodas, as bengalinhas, os centros de enfermagem, pomadinhas para o reumático, etc.
Não com estatuto de especialista nesta área, mas como cidadã que pensa e sofre os problemas da administração, pelo menos deixem-me expressar a perplexidade. Que a reforma da AP é urgente, todos/as concordamos. Precisa-se é de coragem para mudar as regras, os regulamentos, e não recorrer a fórmulas empresariais na moda, ou sair pela porta dos fundos. No meu entendimento o Estado não é uma empresa, mas está ao serviço das propriamente ditas e de cidadãos e cidadãs. Especialista em questões de género

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