sexta-feira, julho 29, 2005
domingo, junho 12, 2005
sexta-feira, maio 20, 2005
gentegiraealegre
Cantar Alentejano
José Afonso
Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer
Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou
Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou
Aquela pomba tão branca
Todos a querem p'ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti
Aquela andorinha negra
Bate as asas p'ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar
José Afonso
Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer
Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou
Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou
Aquela pomba tão branca
Todos a querem p'ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti
Aquela andorinha negra
Bate as asas p'ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar
quinta-feira, abril 28, 2005
sexta-feira, abril 15, 2005
sábado, abril 02, 2005
segunda-feira, março 28, 2005
segunda-feira, março 21, 2005
segunda-feira, março 14, 2005
quarta-feira, março 09, 2005
março 08, 2005 Em 1791..
"Homem, és capaz de ser justo? É uma mulher que te coloca a pergunta; ao menos não a prives desse diireito. Diz-me, o que te dá poder soberano para oprimir o meu sexo? A tua força? os teus talentos?"
"Artigo 10º
Ninguém deve ser incomodado pelas suas opiniões elementares; a mulher tem o direito de subir ao cadafalso, deve também ter o direito de subir à tribuna."
"Mulher, desperta; ouve-se em todo o universo do chamamento da Razão; descobre os teus direitos."
Olympe de Gouges, 1791, Declaração dos direitos da mulher e da cidadã
In Ana Barradas, Direitos das mulheres e da cidadã, Editora Ela por ela
João O
"Artigo 10º
Ninguém deve ser incomodado pelas suas opiniões elementares; a mulher tem o direito de subir ao cadafalso, deve também ter o direito de subir à tribuna."
"Mulher, desperta; ouve-se em todo o universo do chamamento da Razão; descobre os teus direitos."
Olympe de Gouges, 1791, Declaração dos direitos da mulher e da cidadã
In Ana Barradas, Direitos das mulheres e da cidadã, Editora Ela por ela
João O
sábado, março 05, 2005
E agora?
E agora?
Madalena Barbosa
Que a reforma da Administração Pública é urgente, todos/as concordamos. Precisa--se é de coragem para mudar as regras, os regulamentos, e não recorrer a fórmulas empresariais na moda
Diante da torrente de problemas que vamos enfrentar nos próximos anos, encontra-se a questão do "monstro adormecido" - administração pública (AP). Nos últimos anos, tem servido de bode expiatório para todos os males do país - mau atendimento, burocracia, buraco no orçamento, falta de produtividade, embaraço para o crescimento económico, etc., etc. Mas afinal quem é essa gente, humilhada e ofendida, que trabalha na AP?
São médicos e médicas, enfermeiras/os, professores/as, técnicos de serviços sociais, juristas, cientistas, investigadores/as, engenheiros/as, arquitectos/as, operários/as, economistas, administrativos/as de apoio, etc. Quase 60 por cento destas pessoas são mulheres, mas entre os dirigentes de primeiro nível apenas 22 por cento podem vestir outra coisa que não fato escuro e gravata (dados do último censo realizado, em 1999).
E convenhamos que, se, em percentagem da população activa, as gentes que trabalham na AP não são muitas, mas o são em percentagem do PIB, talvez a questão seja o PIB, o produto interno, o crescimento económico. Que por sua vez passaria, também e em parte, por uma reforma da AP. É um dos pratos nacionais preferidos: a pescadinha de rabo na boca.
E a reforma prometida desde 1974? Tarda. Parcial, feita sem o apoio das pessoas que trabalham, mal esclarecidos os seus objectivos, o que tem acontecido é que, cada vez que se faz uma reforma/remendo, acaba-se por inventar novas maneiras de gastar papel e tempo, a burocracia, os tais papéis que ocupam cerca de 60 por cento do tempo de trabalho da AP.
Não sendo de facto a minha especialidade, mas por conhecimento directo, gostava de esclarecer as pessoas em geral que, diferentemente do sector privado, que pode fazer tudo segundo as suas próprias regras, excepto o que é proibido, as pessoas que trabalham na AP só podem fazer aquilo que está definido pela lei como suas competências e segundo métodos e regras legais.
O que quer dizer, por sua vez, que a AP não pode fazer uma verdadeira gestão, tentar métodos organizacionais de economia ou rapidez, procurar a produtividade de forma adequada ao seu sector, mas antes se move num colete-de-forças, em que é mais o proibido do que o permitido, numa série de regulamentos feitos para todos e que não servem a nenhuns.
E quem faz a lei, queridos utentes? Exactamente os mesmos que fazem da AP o seu bode expiatório: os governos. E os nomeados, a quem a AP fornece os dados, os relatórios, os pareceres. Que vão aprendendo a ser dirigentes nas suas áreas com a (in)formação que recebem da famigerada administração.
Era bom que o público soubesse que cada pedido, ofício, carta que apresenta na AP tem de seguir um processo de registos, despachos, informações técnicas, propostas, cabimentos, autorizações, "projectos de ofícios" (esta foi nova para mim, que rica invenção!) que, por vezes, leva a que a carta mais simples leve um mínimo de três semanas até obter resposta. É a lei. Tudo e todos controlados, pois, sabe-se lá? É o reino da desconfiança. Só os que são verdadeiramente vigaristas conseguem ultrapassar a barreira legal dos obstáculos. Quem é honesto e quer cumprir desespera, descabela-se e, depois do desgaste de alguns anos, somado ao insulto geral da nação, desmotiva-se.
Mas o "downsizing" é que é moderno. Com ou sem despedimentos, é a resposta geral, e mais fácil, a qualquer dificuldade. Esta administração que não tem carreira para gestores, nem contabilistas encartados, nem auditores, nenhuma dessas novas profissões que, por vocação, deveriam aumentar a produtividade e acelerar os processos, pensa antes em privatizações ou em organismos paralelos, como as tais fundações e similares. Mas convém não esquecer que a lógica empresarial, principalmente neste jardim à beira mar plantado, é o lucro e não o serviço público. Por trás da transformação de um serviço público noutra coisa qualquer, que não AP, está a tentativa de ultrapassar leis obsoletas e a falta de coragem em as mudar.
Mas, sem despedimentos, com a fórmula de por cada dois reformados entrar um ou uma funcionária nova, como se joga o "puzzle" do aumento da idade das reformas e da inovação tecnológica ou outra?
Se estou bem de cabeça, parece-me aqui haver correntes contraditórias que, como acontece quando se encontram as águas, geram remoinhos que nos prendem e afundam. Com uma reforma mais tardia, haverá menos gente a reformar-se nos próximos anos, o que resultará numa AP envelhecida. No entanto, é com esta população que se pretende a inovação, a implementação de novas tecnologias, o emprego para jovens e o aumento da produtividade.
Sendo assim, onde se empregará a juventude? Vão ser os velhos a pagar os subsídios de desemprego? E "aonde, aonde é que se esconde, essa quimera" (António Nobre que me perdoe), o crescimento do PIB, do PNB e das outras siglas começadas por P?
Esquecendo que mais tempo de vida não equivale a melhor qualidade de vida, sugere-se que as reformas sejam feitas em função da esperança de vida. E como as mulheres vivem cerca de dez anos mais que os homens, lá vamos nós trabalhar até morrer. E sendo as mulheres uma maioria na AP, preparem-se os escritórios para as cadeiras de rodas, as bengalinhas, os centros de enfermagem, pomadinhas para o reumático, etc.
Não com estatuto de especialista nesta área, mas como cidadã que pensa e sofre os problemas da administração, pelo menos deixem-me expressar a perplexidade. Que a reforma da AP é urgente, todos/as concordamos. Precisa-se é de coragem para mudar as regras, os regulamentos, e não recorrer a fórmulas empresariais na moda, ou sair pela porta dos fundos. No meu entendimento o Estado não é uma empresa, mas está ao serviço das propriamente ditas e de cidadãos e cidadãs. Especialista em questões de género
Madalena Barbosa
Que a reforma da Administração Pública é urgente, todos/as concordamos. Precisa--se é de coragem para mudar as regras, os regulamentos, e não recorrer a fórmulas empresariais na moda
Diante da torrente de problemas que vamos enfrentar nos próximos anos, encontra-se a questão do "monstro adormecido" - administração pública (AP). Nos últimos anos, tem servido de bode expiatório para todos os males do país - mau atendimento, burocracia, buraco no orçamento, falta de produtividade, embaraço para o crescimento económico, etc., etc. Mas afinal quem é essa gente, humilhada e ofendida, que trabalha na AP?
São médicos e médicas, enfermeiras/os, professores/as, técnicos de serviços sociais, juristas, cientistas, investigadores/as, engenheiros/as, arquitectos/as, operários/as, economistas, administrativos/as de apoio, etc. Quase 60 por cento destas pessoas são mulheres, mas entre os dirigentes de primeiro nível apenas 22 por cento podem vestir outra coisa que não fato escuro e gravata (dados do último censo realizado, em 1999).
E convenhamos que, se, em percentagem da população activa, as gentes que trabalham na AP não são muitas, mas o são em percentagem do PIB, talvez a questão seja o PIB, o produto interno, o crescimento económico. Que por sua vez passaria, também e em parte, por uma reforma da AP. É um dos pratos nacionais preferidos: a pescadinha de rabo na boca.
E a reforma prometida desde 1974? Tarda. Parcial, feita sem o apoio das pessoas que trabalham, mal esclarecidos os seus objectivos, o que tem acontecido é que, cada vez que se faz uma reforma/remendo, acaba-se por inventar novas maneiras de gastar papel e tempo, a burocracia, os tais papéis que ocupam cerca de 60 por cento do tempo de trabalho da AP.
Não sendo de facto a minha especialidade, mas por conhecimento directo, gostava de esclarecer as pessoas em geral que, diferentemente do sector privado, que pode fazer tudo segundo as suas próprias regras, excepto o que é proibido, as pessoas que trabalham na AP só podem fazer aquilo que está definido pela lei como suas competências e segundo métodos e regras legais.
O que quer dizer, por sua vez, que a AP não pode fazer uma verdadeira gestão, tentar métodos organizacionais de economia ou rapidez, procurar a produtividade de forma adequada ao seu sector, mas antes se move num colete-de-forças, em que é mais o proibido do que o permitido, numa série de regulamentos feitos para todos e que não servem a nenhuns.
E quem faz a lei, queridos utentes? Exactamente os mesmos que fazem da AP o seu bode expiatório: os governos. E os nomeados, a quem a AP fornece os dados, os relatórios, os pareceres. Que vão aprendendo a ser dirigentes nas suas áreas com a (in)formação que recebem da famigerada administração.
Era bom que o público soubesse que cada pedido, ofício, carta que apresenta na AP tem de seguir um processo de registos, despachos, informações técnicas, propostas, cabimentos, autorizações, "projectos de ofícios" (esta foi nova para mim, que rica invenção!) que, por vezes, leva a que a carta mais simples leve um mínimo de três semanas até obter resposta. É a lei. Tudo e todos controlados, pois, sabe-se lá? É o reino da desconfiança. Só os que são verdadeiramente vigaristas conseguem ultrapassar a barreira legal dos obstáculos. Quem é honesto e quer cumprir desespera, descabela-se e, depois do desgaste de alguns anos, somado ao insulto geral da nação, desmotiva-se.
Mas o "downsizing" é que é moderno. Com ou sem despedimentos, é a resposta geral, e mais fácil, a qualquer dificuldade. Esta administração que não tem carreira para gestores, nem contabilistas encartados, nem auditores, nenhuma dessas novas profissões que, por vocação, deveriam aumentar a produtividade e acelerar os processos, pensa antes em privatizações ou em organismos paralelos, como as tais fundações e similares. Mas convém não esquecer que a lógica empresarial, principalmente neste jardim à beira mar plantado, é o lucro e não o serviço público. Por trás da transformação de um serviço público noutra coisa qualquer, que não AP, está a tentativa de ultrapassar leis obsoletas e a falta de coragem em as mudar.
Mas, sem despedimentos, com a fórmula de por cada dois reformados entrar um ou uma funcionária nova, como se joga o "puzzle" do aumento da idade das reformas e da inovação tecnológica ou outra?
Se estou bem de cabeça, parece-me aqui haver correntes contraditórias que, como acontece quando se encontram as águas, geram remoinhos que nos prendem e afundam. Com uma reforma mais tardia, haverá menos gente a reformar-se nos próximos anos, o que resultará numa AP envelhecida. No entanto, é com esta população que se pretende a inovação, a implementação de novas tecnologias, o emprego para jovens e o aumento da produtividade.
Sendo assim, onde se empregará a juventude? Vão ser os velhos a pagar os subsídios de desemprego? E "aonde, aonde é que se esconde, essa quimera" (António Nobre que me perdoe), o crescimento do PIB, do PNB e das outras siglas começadas por P?
Esquecendo que mais tempo de vida não equivale a melhor qualidade de vida, sugere-se que as reformas sejam feitas em função da esperança de vida. E como as mulheres vivem cerca de dez anos mais que os homens, lá vamos nós trabalhar até morrer. E sendo as mulheres uma maioria na AP, preparem-se os escritórios para as cadeiras de rodas, as bengalinhas, os centros de enfermagem, pomadinhas para o reumático, etc.
Não com estatuto de especialista nesta área, mas como cidadã que pensa e sofre os problemas da administração, pelo menos deixem-me expressar a perplexidade. Que a reforma da AP é urgente, todos/as concordamos. Precisa-se é de coragem para mudar as regras, os regulamentos, e não recorrer a fórmulas empresariais na moda, ou sair pela porta dos fundos. No meu entendimento o Estado não é uma empresa, mas está ao serviço das propriamente ditas e de cidadãos e cidadãs. Especialista em questões de género
domingo, fevereiro 27, 2005
26.2.05 Thank you
Peter Benenson, fundador da Amnistia Internacional faleceu ontem, aos 84 anos de idade.
A ele se deve a origem da maior e mais relevante organização internacional na defesa dos direitos humanos, especialmente no que concerne aos prisioneiros políticos.
Foi a partir de uma pequena notícia de jornal, no início dos anos 60, que referia que dois jovens estudantes portugueses tinham sido condenados a 7 anos de prisão por terem feito um brinde à liberdade, que despoletou neste advogado inglês o desejo e a ideia de fazer algo mais do que apresentar um simples protesto diplomático. E inventou o apelo da sociedade civil, das populações livres em favor daquelas que aspiram à liberdade. Muitos milhares de prisoneiros políticos de todo o mundo, e sem qualquer distinção de regime político, viram as suas condições de detenção melhoradas quando as autoridades começavam a receber apelos insistentes em favor de alguém que o próprio regime queria ignorar e abafar. A partir desse momento, aquele preso tornava-se incómodo, porque muito mais dificilmente poderia desaparecer. Muitos foram libertados, as suas sentenças revistas ou anuladas. Tudo isso valeu a pena.
A ele se deve a origem da maior e mais relevante organização internacional na defesa dos direitos humanos, especialmente no que concerne aos prisioneiros políticos.
Foi a partir de uma pequena notícia de jornal, no início dos anos 60, que referia que dois jovens estudantes portugueses tinham sido condenados a 7 anos de prisão por terem feito um brinde à liberdade, que despoletou neste advogado inglês o desejo e a ideia de fazer algo mais do que apresentar um simples protesto diplomático. E inventou o apelo da sociedade civil, das populações livres em favor daquelas que aspiram à liberdade. Muitos milhares de prisoneiros políticos de todo o mundo, e sem qualquer distinção de regime político, viram as suas condições de detenção melhoradas quando as autoridades começavam a receber apelos insistentes em favor de alguém que o próprio regime queria ignorar e abafar. A partir desse momento, aquele preso tornava-se incómodo, porque muito mais dificilmente poderia desaparecer. Muitos foram libertados, as suas sentenças revistas ou anuladas. Tudo isso valeu a pena.
quarta-feira, fevereiro 23, 2005
Poema
Rreth flamurit të përbashkuar,
Me një dëshirë dhe një qëllim,
Të gjithë Atij duke iu betuar,
Të lidhim besën për shpëtim.
CHORUS
Prej lufte veç ay largohet,
Që është lindur tradhëtor,
Kush është burrë nuk frikësohet,
Po vdes, po vdes si një dëshmor.
Në dorë armët do t'i mbajmë,
Të mbrojmë Atdheun në çdo vend,
Të drejtat tona ne s'i ndajmë,
Këtu armiqtë s'kanë vend.
CHORUS
Se Zoti vetë e tha më gojë,
Që kombe shuhen përmbi dhč,
Po Shqipëria do të rrojë,
Për të, për të luftojmë ne.
Me një dëshirë dhe një qëllim,
Të gjithë Atij duke iu betuar,
Të lidhim besën për shpëtim.
CHORUS
Prej lufte veç ay largohet,
Që është lindur tradhëtor,
Kush është burrë nuk frikësohet,
Po vdes, po vdes si një dëshmor.
Në dorë armët do t'i mbajmë,
Të mbrojmë Atdheun në çdo vend,
Të drejtat tona ne s'i ndajmë,
Këtu armiqtë s'kanë vend.
CHORUS
Se Zoti vetë e tha më gojë,
Që kombe shuhen përmbi dhč,
Po Shqipëria do të rrojë,
Për të, për të luftojmë ne.
domingo, fevereiro 20, 2005
segunda-feira, fevereiro 14, 2005
sábado, fevereiro 12, 2005
quarta-feira, fevereiro 09, 2005
A Campanha Vista a 9133 Km de Distância (II)
“Jogo Sujo”, ou a Má Influência Americana
Não me proponho fazer uma análise à campanha – há muita gente a fazê-lo diariamente na blogosfera muito melhor do que eu –, ou sequer ao debate de ontem à noite entre Santana Lopes e José Sócrates, mas como jornalista a viver há 10 anos nos EUA e a acompanhar diariamente a realidade política americana, admito que fiquei bastante surpreendido com a crescente americanização da política portuguesa. O mimetismo é inescapável.
Não estou aqui a falar do formato civilizado – a expressão não é minha – do debate, mas da forma como a campanha propriamente dita está a ser gerida. Os rumores e boatos, os ataques pessoais feitos por interposta pessoa, enfim toda a “campanha negativa”, são marcas inequívocas de uma importação do que de pior se faz na política americana. Exagero? Acredito que não.
O próprio Pedro Santana Lopes admitiu isso mesmo ontem à noite durante o debate quando confrontado directamente por Sócrates em relação ao célebre cartaz da JSD: “As campanhas em que se fala dos adversários são hábito em todas as democracias, nomeadamente, na americana”, respondeu o ainda primeiro-ministro. Mas esta admissão é apenas a ponta do véu. Sócrates tem razão num ponto – nunca se assistira em Portugal a uma campanha de ataque sistemático ao adversário, onde mais de metade do esforço de propaganda do partido do governo faz referência directa às posições da oposição em vez de veicular as suas próprias ideias.
É certo que as americanices não são novidade nas campanhas políticas portuguesas. Dos chapéus de palha da candidatura presidencial de Freitas do Amaral, em 1986, aos aventais de Paulo Portas, há muito que os políticos portugueses se inspiravam nas campanhas eleitorais americanas. A novidade é a importação das tácticas da “campanha suja”.
Pode ser apenas por estar a acompanhar esta campanha eleitoral com óculos americanos, mas acredito que Santana Lopes – e os seus assessores – está a copiar ao milímetro as tácticas usadas pelo actual presidente americano em 2000 e 2004, acreditando que foram elas que deram a vitória a George W. Bush – ele próprio um político algo impopular, acusado de incompetência e com uma imagem pública não muito favorável. Santana acredita que pode fazer em Portugal o decalque de uma campanha eleitoral americana. Vamos aos exemplos:
Boatos e Rumores – Em 2000, depois do senador John McCain ter vencido folgadamente as primárias republicanas em New Hampshire, a “máquina venenosa” montada por Karl Rove – o “arquitecto” das campanhas de Bush – avançou em força para a Carolina do Sul, onde as sondagens apontavam para mais uma derrota quase certa. Anúncios televisivos da candidatura de Bush atacavam McCain directamente. Mas isso não chegava. De uma forma consistente e misteriosa, começaram a circular entre o eleitorado republicano fotocópias de uma fotografia de família de McCain, onde o senador aparecia abraçado à mulher e ao seu filho adoptivo vietnamita. A insinuação era clara: num estado sulista onde a guerra civil americana ainda é referida como “a guerra de agressão nortenha”, onde o racismo ainda marca a vida quotidiana, a imagem de McCain abraçado a um adolescente de pele escura valia mais que mil palavras (ver Slate - Instant Analysis by Jacob Weisberg e BBC - Republican’s negative campaign row).
Convém dizer que John McCain é um dos mais emblemáticos políticos americanos – um republicano moderado que sempre se recusou curvar à chamada “direita religiosa” e que assina propostas legislativas ao lado dos democratas.
Mas Rove não se deu por satisfeito. Paralelamente à fotocópia da foto de família, surgiu um rumor segundo o qual John McCain teria problemas de estabilidade mental e emocional como consequência de ter passado cinco anos da sua vida como prisioneiro de guerra no Vietname. Ao mesmo tempo, alistou a “direita religiosa” para atacar também John McCain – ver Reverend Pat Robertson attacks McCain.
Os golpes contra McCain resultariam e George W. Bush ganhou as primárias na Carolina do Sul, uma vitória que abriria caminho para a disputa da Casa Branca (ver For ‘Gutter Politics,’ Look to the Bush Camp).
É verdade que sempre existiram boatos e rumores na política eleitoral portuguesa. Mas é também verdade que estes nunca tinham sido utilizados de forma tão deliberada e sistemática pela máquina de um partido.
Ataques Indirectos – O célebre cartaz da JSD contra José Sócrates é o anúncio dos “swift boat veterans” de Pedro Santana Lopes. A sua responsabilidade é atribuída à JSD, ilibando o ainda primeiro-ministro de qualquer tipo de responsabilidades no ataque pessoal e nas insinuações, da mesma forma que George W. Bush lavou as mãos do anúncio televisivo que questionava o serviço militar de John Kerry no Vietname. Curiosamente, o republicano John McCain, que em 2000 sofrera na pele os efeitos da “máquina venenosa” de Bush, veio de imediato a público classificar os ataques como deploráveis e desonestos, tal como alguns destacados militantes do PSD criticam agora a estratégia de ataque sem precedentes claramente escolhida por Santana Lopes. Mas, tal como McCain o fez em 2004, também eles ainda assim vão votar no candidato que desprezam.
A vantagem política dos rumores, boatos e ataques indirectos é o facto de ser impossível combatê-los de forma eficaz. Responder a insinuações nem sempre é uma manobra inteligente. E, por vezes, não contestar ainda é pior (Kerry esperou três semanas até responder às acusações dos swift boat vets, numa estratégia que tentava ignorar os insultos mas que acabaria por lhe sair pela culatra dado o impacto que o anúncio teve junto do eleitorado - ver JS Online: Swift boat ad has outsize impact).
Há mais exemplos de estratégias simétricas entre a campanha de Santana Lopes e a arquitectura desenhada por Karl Rove para as candidaturas de George W. Bush – a insistência em “issue politics”, ou política de “causas”, é outro, mas ficará para um post futuro.
Mas outros paralelos existem. Para muitos, tal como John Kerry face a George W. Bush, José Sócrates é também o não-Santana. Tal como Kerry, Sócrates é monocórdico, desprovido de carisma, quase robótico (usando uma expressão de Luís Osório). Pedro Santana Lopes, tal como Bush, transpira uma imagem de incompetência e não se importa de jogar sujo, de chafurdar na lama, se pensar que com isso poderá continuar a seguir em frente.
Mas, depois de tudo isto, Pedro Santana Lopes e os assessores que o aconselham a enveredar pela “campanha suja” decalcada da campanha eleitoral americana esquecem-se de um pequeno pormenor: Portugal não é os Estados Unidos e a realidade – e as tradições – políticas e sociais dos dois países tornam a transposição pura e simples de estratégias simplesmente risível. Para mais, a juntar às diferenças, George W. Bush teve Karl Rove e um partido unido em peso atrás de si. Pedro Santana Lopes não tem ninguém equiparável a Rove e o PSD, por sua causa, enfrenta uma profunda crise de identidade.
__________________________________________________
“Campanhas sujas” e a História Americana
As campanhas eleitorais americanas foram sempre marcadas por intensos ataques pessoais. Segundo os historiadores, a mais “suja” campanha de sempre decorreu em 1828, entre Andrew Jackson e John Quincy Adams – que, em 1796, chegou a ser ministro plenipotenciário dos Estados Unidos em Portugal. A candidatura de Jackson chamava a Adams “O Chulo”, enquanto um jornal favorável a Adams acusava a mãe de Jackson de ser “uma vulgar prostituta trazida pelos soldados ingleses”. Mas as calúnias não se ficaram por aqui: adúltero, dono de escravos, bêbado, analfabeto, briguento e ateu foram alguns dos insultos trocados entre dois candidatos. E quando deixaram de ter nomes para chamar um ao outro, Jackson e Quincy Adams voltaram-se para as mulheres do adversário. Estava dado o mote para um futuro promissor que atravessa agora o Atlântico com quase dois séculos de atraso.
Posted by Nuno Guerreiro arquivado em Opinião & Comentário
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A Campanha Vista a 9133 Km de Distância (I)
February 3rd, 2005
1. Dois posts para ponderar: Em quem vou votar?, de Paulo Gorjão, e o voto em branco, de João Miranda.
2. O facto de Paulo Portas (ainda Ministro da Defesa) ter aproveitado as bases de dados pessoais do seu ministério para fazer campanha eleitoral ultrapassa tudo o que pode ser admissível em democracia. Num post intitulado A Fina Linha, Luís G. Rodrigues, autor do excelente Random Precision, conta que o líder do CDS/PP enviou uma carta de propaganda eleitoral – assinada também por Bagão Felix – a 400 mil antigos combatentes, recorrendo às moradas que constam nos arquivos à guarda do Ministério da Defesa. “Violação da lei de protecção de dados informáticos”, “utilização de recursos do Estado para a prossecução de interesses eleitorais partidários” e “falta de ética política e intelectual” – é assim que Luís G. Rodrigues classifica este golpe francamente baixo de Portas.
::ADENDA:: Um exemplar da carta recebida pelos ex-combatentes nos últimos dias, datada de “Dezembro de 2004”, pode ser visto no des-Encantos. O Victor, um dos visados pela missiva, comenta-a aqui.
Posted by Nuno Guerreiro arquivado em Opinião & Comentário, Blogosfera
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Henrique Canto e Castro (1930-2005)
Não me proponho fazer uma análise à campanha – há muita gente a fazê-lo diariamente na blogosfera muito melhor do que eu –, ou sequer ao debate de ontem à noite entre Santana Lopes e José Sócrates, mas como jornalista a viver há 10 anos nos EUA e a acompanhar diariamente a realidade política americana, admito que fiquei bastante surpreendido com a crescente americanização da política portuguesa. O mimetismo é inescapável.
Não estou aqui a falar do formato civilizado – a expressão não é minha – do debate, mas da forma como a campanha propriamente dita está a ser gerida. Os rumores e boatos, os ataques pessoais feitos por interposta pessoa, enfim toda a “campanha negativa”, são marcas inequívocas de uma importação do que de pior se faz na política americana. Exagero? Acredito que não.
O próprio Pedro Santana Lopes admitiu isso mesmo ontem à noite durante o debate quando confrontado directamente por Sócrates em relação ao célebre cartaz da JSD: “As campanhas em que se fala dos adversários são hábito em todas as democracias, nomeadamente, na americana”, respondeu o ainda primeiro-ministro. Mas esta admissão é apenas a ponta do véu. Sócrates tem razão num ponto – nunca se assistira em Portugal a uma campanha de ataque sistemático ao adversário, onde mais de metade do esforço de propaganda do partido do governo faz referência directa às posições da oposição em vez de veicular as suas próprias ideias.
É certo que as americanices não são novidade nas campanhas políticas portuguesas. Dos chapéus de palha da candidatura presidencial de Freitas do Amaral, em 1986, aos aventais de Paulo Portas, há muito que os políticos portugueses se inspiravam nas campanhas eleitorais americanas. A novidade é a importação das tácticas da “campanha suja”.
Pode ser apenas por estar a acompanhar esta campanha eleitoral com óculos americanos, mas acredito que Santana Lopes – e os seus assessores – está a copiar ao milímetro as tácticas usadas pelo actual presidente americano em 2000 e 2004, acreditando que foram elas que deram a vitória a George W. Bush – ele próprio um político algo impopular, acusado de incompetência e com uma imagem pública não muito favorável. Santana acredita que pode fazer em Portugal o decalque de uma campanha eleitoral americana. Vamos aos exemplos:
Boatos e Rumores – Em 2000, depois do senador John McCain ter vencido folgadamente as primárias republicanas em New Hampshire, a “máquina venenosa” montada por Karl Rove – o “arquitecto” das campanhas de Bush – avançou em força para a Carolina do Sul, onde as sondagens apontavam para mais uma derrota quase certa. Anúncios televisivos da candidatura de Bush atacavam McCain directamente. Mas isso não chegava. De uma forma consistente e misteriosa, começaram a circular entre o eleitorado republicano fotocópias de uma fotografia de família de McCain, onde o senador aparecia abraçado à mulher e ao seu filho adoptivo vietnamita. A insinuação era clara: num estado sulista onde a guerra civil americana ainda é referida como “a guerra de agressão nortenha”, onde o racismo ainda marca a vida quotidiana, a imagem de McCain abraçado a um adolescente de pele escura valia mais que mil palavras (ver Slate - Instant Analysis by Jacob Weisberg e BBC - Republican’s negative campaign row).
Convém dizer que John McCain é um dos mais emblemáticos políticos americanos – um republicano moderado que sempre se recusou curvar à chamada “direita religiosa” e que assina propostas legislativas ao lado dos democratas.
Mas Rove não se deu por satisfeito. Paralelamente à fotocópia da foto de família, surgiu um rumor segundo o qual John McCain teria problemas de estabilidade mental e emocional como consequência de ter passado cinco anos da sua vida como prisioneiro de guerra no Vietname. Ao mesmo tempo, alistou a “direita religiosa” para atacar também John McCain – ver Reverend Pat Robertson attacks McCain.
Os golpes contra McCain resultariam e George W. Bush ganhou as primárias na Carolina do Sul, uma vitória que abriria caminho para a disputa da Casa Branca (ver For ‘Gutter Politics,’ Look to the Bush Camp).
É verdade que sempre existiram boatos e rumores na política eleitoral portuguesa. Mas é também verdade que estes nunca tinham sido utilizados de forma tão deliberada e sistemática pela máquina de um partido.
Ataques Indirectos – O célebre cartaz da JSD contra José Sócrates é o anúncio dos “swift boat veterans” de Pedro Santana Lopes. A sua responsabilidade é atribuída à JSD, ilibando o ainda primeiro-ministro de qualquer tipo de responsabilidades no ataque pessoal e nas insinuações, da mesma forma que George W. Bush lavou as mãos do anúncio televisivo que questionava o serviço militar de John Kerry no Vietname. Curiosamente, o republicano John McCain, que em 2000 sofrera na pele os efeitos da “máquina venenosa” de Bush, veio de imediato a público classificar os ataques como deploráveis e desonestos, tal como alguns destacados militantes do PSD criticam agora a estratégia de ataque sem precedentes claramente escolhida por Santana Lopes. Mas, tal como McCain o fez em 2004, também eles ainda assim vão votar no candidato que desprezam.
A vantagem política dos rumores, boatos e ataques indirectos é o facto de ser impossível combatê-los de forma eficaz. Responder a insinuações nem sempre é uma manobra inteligente. E, por vezes, não contestar ainda é pior (Kerry esperou três semanas até responder às acusações dos swift boat vets, numa estratégia que tentava ignorar os insultos mas que acabaria por lhe sair pela culatra dado o impacto que o anúncio teve junto do eleitorado - ver JS Online: Swift boat ad has outsize impact).
Há mais exemplos de estratégias simétricas entre a campanha de Santana Lopes e a arquitectura desenhada por Karl Rove para as candidaturas de George W. Bush – a insistência em “issue politics”, ou política de “causas”, é outro, mas ficará para um post futuro.
Mas outros paralelos existem. Para muitos, tal como John Kerry face a George W. Bush, José Sócrates é também o não-Santana. Tal como Kerry, Sócrates é monocórdico, desprovido de carisma, quase robótico (usando uma expressão de Luís Osório). Pedro Santana Lopes, tal como Bush, transpira uma imagem de incompetência e não se importa de jogar sujo, de chafurdar na lama, se pensar que com isso poderá continuar a seguir em frente.
Mas, depois de tudo isto, Pedro Santana Lopes e os assessores que o aconselham a enveredar pela “campanha suja” decalcada da campanha eleitoral americana esquecem-se de um pequeno pormenor: Portugal não é os Estados Unidos e a realidade – e as tradições – políticas e sociais dos dois países tornam a transposição pura e simples de estratégias simplesmente risível. Para mais, a juntar às diferenças, George W. Bush teve Karl Rove e um partido unido em peso atrás de si. Pedro Santana Lopes não tem ninguém equiparável a Rove e o PSD, por sua causa, enfrenta uma profunda crise de identidade.
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“Campanhas sujas” e a História Americana
As campanhas eleitorais americanas foram sempre marcadas por intensos ataques pessoais. Segundo os historiadores, a mais “suja” campanha de sempre decorreu em 1828, entre Andrew Jackson e John Quincy Adams – que, em 1796, chegou a ser ministro plenipotenciário dos Estados Unidos em Portugal. A candidatura de Jackson chamava a Adams “O Chulo”, enquanto um jornal favorável a Adams acusava a mãe de Jackson de ser “uma vulgar prostituta trazida pelos soldados ingleses”. Mas as calúnias não se ficaram por aqui: adúltero, dono de escravos, bêbado, analfabeto, briguento e ateu foram alguns dos insultos trocados entre dois candidatos. E quando deixaram de ter nomes para chamar um ao outro, Jackson e Quincy Adams voltaram-se para as mulheres do adversário. Estava dado o mote para um futuro promissor que atravessa agora o Atlântico com quase dois séculos de atraso.
Posted by Nuno Guerreiro arquivado em Opinião & Comentário
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A Campanha Vista a 9133 Km de Distância (I)
February 3rd, 2005
1. Dois posts para ponderar: Em quem vou votar?, de Paulo Gorjão, e o voto em branco, de João Miranda.
2. O facto de Paulo Portas (ainda Ministro da Defesa) ter aproveitado as bases de dados pessoais do seu ministério para fazer campanha eleitoral ultrapassa tudo o que pode ser admissível em democracia. Num post intitulado A Fina Linha, Luís G. Rodrigues, autor do excelente Random Precision, conta que o líder do CDS/PP enviou uma carta de propaganda eleitoral – assinada também por Bagão Felix – a 400 mil antigos combatentes, recorrendo às moradas que constam nos arquivos à guarda do Ministério da Defesa. “Violação da lei de protecção de dados informáticos”, “utilização de recursos do Estado para a prossecução de interesses eleitorais partidários” e “falta de ética política e intelectual” – é assim que Luís G. Rodrigues classifica este golpe francamente baixo de Portas.
::ADENDA:: Um exemplar da carta recebida pelos ex-combatentes nos últimos dias, datada de “Dezembro de 2004”, pode ser visto no des-Encantos. O Victor, um dos visados pela missiva, comenta-a aqui.
Posted by Nuno Guerreiro arquivado em Opinião & Comentário, Blogosfera
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Henrique Canto e Castro (1930-2005)















